Curtis Yarvin, O Vale do Silício e J.D Vance¶
Aulão do Tio João Carvalho no YT
O projeto neorreacionário¶
Bases Teóricas¶
É baseado na razão instrumental e na colonialidade do poder.
Razão instrumental é a redução da política à eficiência técnico-econômica, que abre espaço para formas de dominação antidemocrática apresentadas como "racionais" e "otimizadas" (neoliberalismo gerencial)[1][2].
Colonialidade do poder é a continuidade das hierarquias raciais e imperiais sob formas renovadas de capitalismo, Estado e tecnologia[3][4].
Fundindo os dois, surge o Dark Enlightenment: projeto de recolonização interna: usar tecnologia, capital de risco e aparato estatal para restaurar hierarquias "naturais" de raça, gênero e classe sob a linguagem da eficiência e da inovação.
A ruptura com a democracia liberal¶
Yarvin apresenta seu blog Unqualified Reservations como uma "red pill" para escapar da "matrix democrática". Logo no início ele formula seu objetivo:
Nosso propósito é simples: desmantelar a Igreja do Progresso, o culto secular que governa o Ocidente. Seu nome teológico é 'democracia'.
MOLDBUG, Mencius [Curtis YARVIN]. A gentle introduction to unqualified reservations, 2009
Em outro ensaio programático, ele explicita a conclusão "formalista":
Uma conclusão do formalismo é que a democracia é -- como a maioria dos autores antes do século XIX concordaria -- um sistema de governo ineficaz e destrutivo.
MOLDBUG, Mencius [Curtis YARVIN]. A formalist manifesto, 2007
Aqui a democracia não é vista como regime imperfeito a ser reformado, mas como erro estrutural a ser abolido.
Conceito: "Dark Enlightenment" / Neorreação (NRx)¶
Pesquisas recentes tratam o Dark Enlightenment / Neoreaction (NRx) como uma corrente política articulada, não apenas uma subcultura de blogs:
O movimento neorreacionário (NRx), frequentemente chamado de "Dark Enlightenment", emergiu como uma força radical que desafia de modo fundamental os princípios centrais da democracia liberal, defendendo um monarquismo tecnocrático e a substituição da participação de massas por um CEO-monarca e especialistas não eleitos. [6]
Roger Burrows sintetiza o núcleo ideológico:
A neorreação é hiperneoliberal, tecnologicamente determinista, antidemocrática, antigualitária, pró-eugenista, racista e, provavelmente, fascista. [7]
A "Catedral": teoria da hegemonia em chave conspiratória¶
Para Yarvin, a democracia é fachada; o verdadeiro poder estaria em uma metainstituição que ele chama de "A Catedral":
A Catedral é apenas o nosso nome para a coisa que de fato nos governa. Ela tem duas altas torres: a torre acadêmica (especialmente as humanidades na Ivy League) e a torre da mídia (especialmente o jornalismo do New York Times e do Washington Post).
MOLDBUG, Mencius [Curtis YARVIN]. A formalist manifesto, 2007
Em sua Open Letter to Open-Minded Progressives, ele caracteriza o progressista como membro de uma casta "brâmane" infectada por um "vírus" ideológico:
Como um brâmane (vou presumir que você seja um brâmane), você vive dentro do vírus Y.
MOLDBUG, Mencius [Curtis YARVIN]. An open letter to open-minded progressives, 2008.
A "Catedral" funciona, assim, como uma teoria conspiratória de hegemonia cultural: universidades, mídia e burocracias seriam um bloco ideológico progressista que manipula a "opinião pública" e torna a democracia uma farsa.
Sarmast enfatiza o papel dessa teoria:
A teoria da 'Catedral' de Yarvin conceitua uma aliança informal porém poderosa entre academia, mídia mainstream e burocracias estatais como um aparelho ideológico que sustenta a ortodoxia progressista e marginaliza a dissidência. [6]
Smith e Burrows interpretam isso como uma reescrita reacionária da crítica à ideologia:
A neorreação apropria-se da linguagem da crítica da ideologia, mas a reorienta para uma narrativa conspiratória de direita em que instituições liberal-democráticas são tratadas como um único 'stack' de software - a Catedral - que deve ser desinstalado e substituído por uma soberania corporativa. [8]
A crítica de Yarvin apaga o colonialismo e o racismo estrutural: o "sistema" que o oprime não é o capitalismo racial ou o imperialismo, mas o "progressismo". O que em Gramsci, Quijano ou Mbembe serve para denunciar a dominação branca é reempacotado como denúncia de uma suposta ditadura igualitária que ameaçaria... as elites brancas educadas.
Racismo, nostalgia imperial e "supremacia branca suave"¶
Yarvin opõe uma América branca, pré-Guerra Civil, a uma América democrática e multirracial:
A América de 1850 era uma república. A América de 1950 era uma democracia. A América de 1850 era um país para brancos. A América de 1950 era um país para todos... Qual era melhor?
MOLDBUG, Mencius [Curtis YARVIN]. A Tabela de Madison, 2009
Ao falar de Cecil Rhodes, símbolo do imperialismo britânico, ele escreve:
Cecil Rhodes não foi um monstro. Foi um construtor de impérios, um estadista, talvez até um visionário... O problema não é que Rhodes era racista; o problema é que nós perdemos a coragem para ser rhodesianos.
MOLDBUG, Mencius [Curtis YARVIN]. What's wrong with 20th century?, 2008
A mensagem é cristalina: o problema não é o racismo, mas a suposta perda de coragem para sustentar um projeto civilizatório branco, colonial e hierárquico.
Conceito: nacionalismo racial e "alt-right"¶
Patrik Hermansson e colegas descrevem a alt-right como:
um meio transnacional de extrema direita que combina identitarismo branco, misoginia, política antidemocrática e táticas subculturais online em uma nova forma de fascismo para o século XXI. [9]
Angela Nagle observa:
Apelos à 'civilização' e aos 'valores ocidentais' na alt-right frequentemente ocultam uma agenda racializada que posiciona homens brancos como as verdadeiras vítimas do igualitarismo liberal. [10]
Enzo Traverso, ao falar de pós-fascismo, destaca:
Novos movimentos de extrema direita reciclam elementos centrais do fascismo clássico - nacionalismo, hierarquia, culto à autoridade - em contextos pós-democráticos e neoliberais, frequentemente abandonando símbolos fascistas explícitos enquanto preservam a substância. [11]
Mbembe mostra como a modernidade ocidental produz um "devir negro do mundo" que transforma populações racializadas em matéria descartável; o elogio de Yarvin a Rhodes e à América escravista reinscreve esse imaginário necropolítico no coração do projeto NRx.
Patchwork, neocameralismo e o soberano-CEO¶
A "solução" política de Yarvin¶
A alternativa de Yarvin à democracia é o Patchwork: uma malha de "corporações soberanas" administradas como empresas por soberanos-CEO.
No Patchwork, o governo é um serviço fornecido no mercado. O Estado é uma corporação, sua constituição é um contrato, e seu soberano é um CEO. A lealdade não é a um processo, mas a uma pessoa; a obediência não é a uma lei, mas a um soberano.
Ao discutir Manhattan, ele lamenta que a cidade não seja gerida como ativo privado:
O problema é que Manhattan não é governada no interesse de Manhattan. Em suma, capital está sendo desperdiçado.
Sobre a relação entre esse soberano e a população:
Se você é um cidadão de uma corporação soberana e não gosta de suas políticas, sua solução não é votar. É sair. Você rescinde o contrato.
Neocameralismo e Gov-Corp: O Estado como Corporação¶
Explorando o conceito extremista de Yarvin de transformar o Estado em uma empresa governada por um CEO-monarca
30:37
O Estado como Corporação¶
Referências¶
- ADORNO, HORKHEIMER: Dialética do Esclarecimento
- BROWN: In the Ruins of Neoliberalism: The Rise of Antidemocratic Politics in the West
- QUIJANO: Colonialidad del poder, eurocentrismo y América Latina
- MIGNOLO: A ideia de América Latina
- MBEMBE: Crítica da Razão Negra
- SARMAST: The Tecnocratic monarchist movement in america: theoretical dimensions and political impacts
- BURROWS: On neoreaction
- SMITH, BURROWS: Software, sovereignty and the post-neoliberal politics of exit
- HERMANSSON: The international alt-right: fascism for the 21st century?
- NAGLE: Kill all normies: online culture wars from 4chan and tumblr to trump and the alt-right
- TRAVERSO: the new faces of fascism: populism and the far right